Escrevi esse artigo em parceria com a estimada Mariana Covre, o qual foi publicado em 2021, no site "O Consumerista", plataforma que foi descontinuada em 2023.
Publico aqui para registro e posterior citação.
O papel da Ouvidoria na construção e na manutenção da
reputação organizacional na esfera pública
Mariana Covre e Rose Meire Cyrillo
Há tempos a reputação tornou-se um ativo de grande valor para
as organizações de um modo geral, configurando-se num diferencial competitivo
no complexo e acirrado mercado globalizado, que exige de seus players sólidas
políticas corporativas baseadas em ações e interações de qualidade com seus
diferentes públicos, tendo a Ouvidoria como elemento catalisador dessas
percepções e de costura de relacionamentos qualificados.
Os ambientes organizacionais e negociais estão inseridos em
uma corrida pelo cumprimento de exigências normativas, culturais e
comportamentais - como os atuais cenários dos programas de integridade, códigos
de ética e proteção de dados pessoais, sejam nas relações entre entes privados
e públicos - que, ao protegem a imagem institucional perante seu público,
também protegem os próprios clientes.
Uma instituição de alto valor reputacional não somente agrega
maior confiança de seu público pela forma como este a vê, como pelos resultados
que entrega, mais garantidores de segurança e proteção ao próprio cliente.
A sustentação dessa reputação depende, cada vez mais, da
utilização e manutenção de ferramentas que aproximam o público/cliente do
negócio, especialmente aquelas que se apresentam com um relevante e contínuo
papel comunicacional, possibilitando ao cliente estar mais próximo da
instituição.
Comumente as organizações, através de suas Ouvidorias,
estabelecem vínculos e apostam em relações comunicacionais que possam lhe
trazer benefícios, bem como utilizam-se dessa abertura para expressar seus
atributos (identidade projetada), de forma a influir nas escolhas de seus
stakeholders já que estes, geralmente, estabelecem seus relacionamentos tendo como base a sua reputação.
Aos poucos essa percepção sobre a importância do manejo de
riscos reputacionais vem ocupando espaço não somente na pauta das empresas que
atuam no segmento privado, como de gestores públicos, notadamente naquelas
organizações que possuem um Programa de Integridade estruturado em valores como ética e transparência, e
possuem a Ouvidoria como um de seus pilares, no tocante ao exercício das
competências conversacionais e dialógicas, tão importantes em momentos críticos
como o ora vivido, em que públicos cada vez mais engajados, bem informados e
conectados em redes costumam ser implacáveis em seus julgamentos, ante à
incoerência de alguns órgãos, cujas ações afrontam sua própria essência e os
valores mais caros à sociedade.
Nesta perspectiva, a questão da reputação na seara pública
está mais afeta a uma dimensão de legitimidade, envolvendo a relação direta de
proporcionalidade e coerência entre o que a organização diz e faz e sua
desejável manutenção no sistema social, a partir da percepção de diferentes
públicos. Nesse desiderato, os Ouvidores e suas equipes podem criar uma reserva
de legitimidade por meio de um processo comunicacional produtivo que qualifique
o relacionamento da Organização com seus diferentes públicos, impactando na sua
boa reputação e credibilidade.
Os gestores públicos que já compreenderam o valor exponencial
do ouvir estruturaram suas Ouvidorias de forma a tornar essa arena dialógica
uma fonte contínua de captação de percepções (consultoria qualificada e gratuita)
que retroalimentam o sistema interno de aperfeiçoamento e aprimoramento dos
fluxos e procedimentos internos, aumentando a qualidade do serviço prestado e
resultados alcançados.
De igual sorte, aqueles que laboram em ambiente de Ouvidoria
são grandes disseminadores da reputação da Organização, posto que estão na
linha de frente do atendimento ao público e, por consequência, o comportamento
desses colaboradores quando dessa interação influenciará a imagem que o
usuário/cidadão/cliente terá da corporação. Assim, quanto mais qualificada e
preparada a equipe, melhor será o resultado dessa costura social.
Em outras palavras, há que se investir na estruturação de
Ouvidorias como recurso estratégico para a construção e manutenção de uma boa
reputação organizacional, bem como na qualificação e treinamento de seus
colaboradores, na medida em que serão essas pessoas que decifrarão as percepções e os comportamentos de diferentes
públicos, transformarão tais insumos em indicadores, trabalharão para que os
atores corporativos assimilem e incorporem em suas decisões esses saberes
extraídos do processo comunicacional, reestruturando assim a cadeia produtiva
de forma atender os padrões e anseios sociais que lhes irão conferir, ao final,
a legitimidade que manterá viva a Organização.
Pode parecer que instituições públicas já gozem,
naturalmente, de um alto índice de aprovabilidade social pelo papel
constitucional que lhes foi traçado, a exemplo do Poder Judiciário e do
Ministério Público brasileiros. A pesquisa Data Folha de abril de 2019, que
mediu o grau de confiança nas instituições, apurou que o Poder Judiciário e o
Ministério Público lideram o ranking em terceiro lugar, estando abaixo das
Forças Armadas, em primeiro, e da Presidência da República, em segundo.
A Corte máxima do País, o Supremo Tribunal Federal, que nessa
pesquisa aparece em colocação posterior às grandes empresas nacionais e
imprensa, não dispõe, em sua estrutura normativa e organizacional, de uma
Ouvidoria estruturada. Em recente busca de acesso à informação naquele
Tribunal, a sua resposta é de que o Manual de Organização e o Regulamento da
Secretaria do STF não preveem, na estrutura orgânica do Tribunal, unidade com a
denominação de Ouvidoria. Dispõe apenas de uma Central do Cidadão (CIDA), que,
com um papel limitador, não substitui o da Ouvidoria. Um cenário que pode
implicar diretamente no nível de distanciamento de seu público, na forma como
ele o vê e o avalia.
O contrassenso é evidente, pois há tempos se reconhece a
importância da Ouvidoria na otimização dos fluxos de comunicação nas
organizações como forma de alavancar diferenciais competitivos através da
assimilação de variadas percepções e a consolidação de um verdadeiro
repositório de dados e informações a respeito dos usuários dos produtos e
serviços oferecidos, bem como sobre a imagem e o nível de excelência da
instituição.
Nessa perspectiva, a existência de uma Ouvidoria efetiva além
de conferir maior transparência às organizações, agregam valor reputacional às
mesmas, sendo certo que esse processo dialógico de alinhamento e respeito às
expectativas dos usuários passa necessariamente pela independência e autonomia
do Ouvidor e a qualificação contínua de toda a equipe, haja vista o nível de
complexidade das atividades que exercem, as quais transbordam os atendimentos
padronizados (e não raras vezes, robotizados) dos SAC’s e centrais de
atendimentos comuns.
Cabe ao Ouvidor costurar e qualificar relações sociais
fazendo com que as pessoas acreditem que vale a pena continuar dialogando com a
Ouvidoria e, consequentemente, mantenham a crença na instituição e em seus
propósitos e resultados.
Em razão disso, fica a pergunta: Como acreditar numa instituição
que não se dispõe a ouvir os seus diferentes públicos?
A ausência de espaços democráticos de diálogo e de
multiportas para a captação de percepções diz mais sobre as organizações do que
podem imaginar seus supremos gestores.

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