domingo, 21 de julho de 2019

A vida não é filme




Que a vida não é filme eu já tinha entendido, bem antes da música do Paralamas do Sucesso e, depois de devorar, em êxtase e num átimo, os 55 episódios das 04 temporadas de Outlander, ficou claro pra mim que a vida é uma série, com drama, romance, fantasia e demais ingredientes tão bem delineados na série de televisão britânico-americana que me hipnotizou nos últimos dias, roteiro baseado na saga literária "A Viajante do Tempo", da autora Diana Gabaldon.
Entre heróis e algozes, amantes e traidores, todos, sem exceção, trocam de papéis no decorrer da "trama" e, também por isso, é que a história torna-se emocionante, excitante e marcante, tornando irrelevante, ao fim e ao cabo, o viver e o morrer, se nesse intervalo não houver um propósito, uma razão, uma centelha divina que nos faça fazer valer a jornada.
Ficção e realidade, verdades benditas e mentiras necessárias....é nessa espiral que nos locomovemos e por vezes nos debatemos para não ceder à aparente calmaria dos abismos. É uma luta ininterrupta, travada todos os dias em nome de uma certeza maior de que nada será em vão e que, ao final do dia, as feridas estarão curadas, tal qual na história de Prometeu.
E no mar tormentoso dos dilemas da condição humana nem sempre poderemos contar com um "belo mocinho" para nos resgatar dos naufrágios ou se submeter as mais repugnantes e dolorosas torturas para nos manter a salvo. Estar à deriva e só, pode ser a única opção no cardápio do dia. É vital estar preparado pra isso.
A vida não é um filme, é uma série....uma série de acontecimentos, de sentimentos e, por consequência, de reiteradas cicatrizes. O bom é que termina um episódio e outro recomeça logo em seguida, comportando, inclusive, mudanças drásticas no rumo da narrativa, até que o Roteirista, Senhor do Tempo, resolva colocar fim na história sem que sequer saibamos se esse será, ou não, o último e derradeiro episódio da temporada.
Je suis prêt et toi?

    







       

sábado, 25 de maio de 2019

Quando o mal do mundo é o outro




Dia desses li uma pequena frase que me fez pensar dias sobre suas possíveis implicações: "A cura da dor do mundo, começa com a nossa própria cura".
Parece simples, mas a assertiva nos traz uma responsabilidade gigante e uma necessidade de voltar o olhar para dentro, nós que estamos tão acostumados a imputar ao outro e a fatores externos todas as culpas pelos nossos fracassos, frustações e infelicidade.
A busca pela "própria cura" implica na aceitação da nossa condição humana, iminentemente imperfeita e falível. Requer a assunção dos erros cometidos e a coragem de contabilizar os resultados nefastos de atitudes impensadas e extremamente lesivas ao próximo.
Que tal olhar-se no espelho, deixar cair a máscara, acariciar feridas e acolher vulnerabilidades, medos e desassossegos, livrar-se da capa de super-homem e aceitar-se frágil e contraditório? Difícil, não é?
O x da questão é que estamos pouco dispostos a enfrentar a Hydra de Lerna que habita no recôndito de todo nós e encarar suas múltiplas, horrendas e regenerativas facetas com coragem e hombridade, decepando e queimando cada uma de suas cabeças com o fogo da persistência e da determinação.
O desafio é colossal e por isso não é de se admirar o quanto buscamos distrações externas e adiamos esse "encontro", desculpas que revelam o nível de resistência que temos em enfrentar nossas próprias sombras e prosseguir apesar delas e com elas. Alguns chegam ao cúmulo de querer que outros realizem essa hercúlea tarefa em seu lugar e não se conformam quando são confrontados com os efeitos da contumaz covardia e da cômoda paralisia que os acompanham durante parte de suas trajetórias pessoais e profissionais
E então vem a inexorável vida e cobra de forma implacável a fatura dos anos passados em brancas nuvens, vividos na ilusão confortável e perfumada dos véus de Samsara,  e nesse momento crucial há quem prefira adotar a postura de vítima e o discurso oportunista de que o mal do mundo é outro, submergindo, mais uma vez, em seu pântano particular, até sufocar qualquer sinal ou apelo íntimo por mudança.
"O mundo é de Deus, mas Deus o aluga aos corajosos". Ditado Espanhol
Que tenhamos coragem para permanecermos firmes em nossa jornada a fim de que a nossa missão pessoal seja cumprida.


     
 

segunda-feira, 20 de maio de 2019

Trabalho ou castigo?

Há tempos venho observando o quanto o trabalho pode ser um fardo penoso para algumas pessoas a ponto de adoecê-las, diminuindo sensivelmente sua produtividade e, invariavelmente, impactando negativamente o ambiente corporativo e a todos que, de alguma forma, lidam com indivíduos desmotivados e sem perspectivas. 
A desmotivação pode estar alicerçada em diferentes causas, desde a insatisfação com as tarefas a serem desempenhadas, ausência de contrapartida financeira adequada, até a sensação de impotência em exercer determinadas atividades que não geram resultados perceptíveis no contexto social, o famoso "enxugar gelo". Não se discute que há muitas situações que abalam o entusiasmo de qualquer cristão contudo, manter um contínuo padrão mental de insatisfação é que são elas. 
Ao mesmo tempo em que se percebe uma total falta de sintonia e de conexão entre quem faz com aquilo que se faz, também salta aos olhos o quanto pessoas infelizes com as funções que desempenham não se movimentam para buscar uma atividade gratificante e que lhe tragam mais prazer e possam expandir as suas potencialidades.
Em mais de 30 anos de serviço público tenho convivido com servidores que encontram-se em situação semelhante, desmotivados e sem grande aderência aos compromissos e às missões do órgão, sem dizer da cotidiana ausência de entusiasmo e de propósitos na execução das tarefas que são de sua atribuição. O "sistema" contribui, algumas vezes, para esse massacre, mas há casos em que a paralisia é inerente ao ser e aos seu contexto pessoal.  
Ligados no modo "automático" fazem o estritamente necessário, não se envolvem em outras atividades e nem se sentem estimulados a buscar inovações ou experimentar novos desafios no campo profissional. 
Os sentimentos de pertencimento e de identidade são quase inexistentes, salvos pelos crachás e funcionais que lhes pesam como grilhões nos bolsos e pescoços. Acostumados ao voluntário cárcere, arrastam orgulhosos seus lamentos e ais pelos corredores dos órgãos e não cogitam sequer mudar de vida e dar espaço para que outros possam ocupar aquele posto de trabalho.....são tantos esperando para serem nomeados e finalmente tomar posse em um cargo público, disputado em concursos cada vez  mais difíceis e escassos.
Esse calvário transforma inevitavelmente qualquer trabalho num castigo e, antes de imputar a fatores externos a culpa pelo martírio diário, há que se fazer uma varredura interna para descobrir se a razão de tanta insatisfação não é fruto de um descontentamento do ser consigo mesmo, sombra que acompanhará a pessoa onde quer que ela vá, do chão da fábrica à cadeira da presidência da corporação.    
Enfim, essa reflexão não veio por acaso, tem muito do meu dia e também, pelo contraste da narrativa, remete ao belíssimo texto do filósofo e poeta árabe, Khalil Gibran, inserido na obra O Profeta, que li dias atrás e onde ele sustenta que o trabalho é o amor tornado visível. 
A obra é conjunto de meditações poéticas sobre diversos temas e, em determinado momento um fazendeiro lhe pede que fale sobre o trabalho. Ele assim responde:
".... E todo trabalho é vazio, exceto quando há amor;
E quando trabalham com amor se aproximam de si mesmos, e uns dos outros, e de Deus.
E o que é trabalhar com amor?
É tecer uma roupa com os fios do coração, como se aqueles que amam fossem vesti-la.
É construir uma casa com afeto, como se aqueles que amam fossem morar sob esse teto.
É plantar sementes com ternura e colher com alegria, como se aqueles que amam fossem comer desse fruto.
É preencher tudo o que criarem com o sopro de seu próprio espírito,
E saber que todos os que se já se foram os observam neste momento". 

Bem-aventurados os que trabalham com prazer e alegria! Dormem em paz e com a consciência tranquila, pois apesar de todas as dificuldades e obstáculos, não deixam de desempenhar da melhor forma possível as suas tarefas!

sábado, 4 de maio de 2019

Os 10 desafios



Desafio nº 1 - Aprender a bastar-se e a distanciar-se de situações, relações, pessoas e emoções predadoras/tóxicas;

Desafio nº 2 -  Envelhecer com saúde física, emocional e espiritual e com uma dose extra de bom humor, pois a queda hormonal é uma amostra grátis do inferno;

Desafio nº 3 - Olhar para o mundo e para as paisagens rotineiras com se fosse sempre a primeira vez ou a última;

Desafio nº4 - Esvaziar as "gavetas" do guarda-roupas e as da alma, eliminando tudo que não já não cabe mais, inclusive os enfeites do ego;

Desafio nº 5 - Diminuir expectativas, cobranças e sobrecargas que ocupam demasiado espaço na bagagem e atrapalham a caminhada;

Desafio nº 6 - Observar e ouvir com atenção e só falar o que for necessário e útil, lembrando que silenciar os ruídos internos e calar as ruminações desnecessárias faz parte do pacote;

Desafio nº 7 - Exercitar a paciência, o perdão e a compaixão consigo e com os outros, pois todos estão em processo constate de aprendizado, cada qual no seu ritmo;

Desafio nº 8 - Ser assertivo, inclusive para dizer não com naturalidade para tudo aquilo que vai contra as suas prioridades e valores;

Desafio nº 9 -  Respeitar-se a amar-se acima de tudo, pois se você não estiver bem consigo mesmo, nada estará bem ao seu redor e;

Desafio nº 10 - Cumprir, ao mesmo tempo, os 9 desafios acima descritos, dia após dia, até o final da existência.  

Da série: De mim para mim mesma.

sábado, 16 de março de 2019

Apenas ouça.




Ouvindo "I hear you now", de John Anderson e Vangelis, me veio a mente um trecho do belíssimo poema "Hear the voice", de William Blake:

                                                   "Hear the voice of the Bard,

                                            Who present, past, and future, sees;

                                                   Whose ears have heard

                                                      The Holy Word

                                              That walk'd among the ancient trees...."


Coincidentemente, celebramos hoje, 16 de março, o Dia Nacional do Ouvidor, função que exerci até dias atrás e que me fez compreender o quão delicada e complexa é a missão de ouvir o outro, bem como ouvir a mim mesma. 

Ao contrário dos Bardos referidos por Blake, trovadores que disseminavam histórias e cantigas pela Europa de antigamente, o tempo todo cantando e contando a vida em suas múltiplas facetas, ser Ouvidor é estar disponível para ouvir o enredo da vida dos outros, estar atento para os sons e para as vozes do mundo e para o silêncio das entrelinhas, ter controle da própria fala e dos ruídos internos, que tanto interferem no processo do escutar mais profundo.

A vida, desde a concepção, está ligada à fala e à escuta. O primeiro órgão a se formar no feto é o ouvido e é através da audição que o bebê ouve o pulsar do coração materno e identifica a voz da mãe, o timbre que é sinônimo de paz, aconchego e segurança.

Rudolf Steiner, filósofo e fundador da Antroposofia, sustenta que não temos apenas cinco sentidos, mas sim 12 e, dentre eles, a audição pertence a um grupo superior, mais requintado e conectado à alma, ao pensamento e à consciência. Eu concordo com ele,

Mas se ouvir é tão importante, porque no mundo de hoje sobram falantes e faltam ouvintes???? Much ado about nothing, como diria o outro William, o Shakespeare. 

Psiu!!!! Silêncio, por favor!!!! Quem fala muito, pouco ou quase nada ouve!

Vivemos numa era de faladores ansiosos que interrompem o interlocutor a todo instante, sem paciência para aguardar o término da fala do outro, uma geração de egocêntricos e faladores compulsivos, que discursam longamente sobre si e suas  visões de mundo, transformando qualquer conversa num monólogo interminável e enfadonho. Não há pausa, tempo, espaço e disponibilidade para o próximo.

Escutar com atenção e interesse renovados é um bálsamo para a febre humana que faz com que pessoas se desconectem de tudo e de todos, numa espécie de auto-exílio emocional. Em decorrência dessa "não escuta" um dia acabarão descobrindo que aquele velho amigo não passa de um mero desconhecido ou, que o companheiro de anos é um mistério, pois o "ouvir no automático" virou rotina, tornou-se um vazio de sentidos, quiçá uma espécie de surdez seletiva, tão comum na atualidade.

Em tempos de redes sociais, profusão de selfs artificiais, dizeres superficiais, do tipo "cola e copia", urge resgatar a verdadeira escuta, plena de sentimentos e sentidos que digam mais sobre o ser e o estar presente no momento, com a mente e o coração abertos para a beleza da vida em todas as suas circunstâncias.  

Bem-aventurados aqueles que compreenderam que o amor começa na escuta, quando se está em silêncio, por dentro e por fora.             




sábado, 23 de fevereiro de 2019

Ainda bem....




Ainda bem que temos a Arte em todas as suas nuances e formas de expressão a nos dar refúgio e conforto nos momentos mais sombrios da existência humana....
A música, a poesia, a fotografia e tudo mais que nos arrebate a alma e o coração, nos salvando da dor das nossas próprias imperfeições e dos ruídos internos, tantos ais e lamentações....
Acordes, rimas e paisagens que num passe de mágica nos sequestram das garras amarguradas do perverso cotidiano de nós mesmos, bálsamos a refrescar feridas permanentes e a nos transportar para outras dimensões, outras vidas e outras tantas possibilidades.
A Arte abre um canal de conexão entre nós, o Divino e o Sagrado.
Nem todos conseguem transpor esse portal, pois a travessia requer mentes e corações sintonizados com o numinoso, com tudo que transcenda nossa pobre condição humana, racional e materialista.
Aventurar-se pelo desconhecido, deixar-se conduzir pela intuição, abandonar o controle, libertar-se das amarras e das crenças paralisantes e limitadoras, desaprender e transbordar.
Há tantas surpresas nessa viagem e nem é preciso perder a lucidez ou usar de subterfúgios químicos para penetrar nesse território mágico, quiçá sair do lugar, do país, do próprio corpo.
Vamos lá, esse é um convite para apurar a escuta, desembaçar a visão, desentorpecer os sentidos e brincar de ver e sentir tudo como se fosse a primeira vez....saborear cada dia como se fosse o último das nossas vidas.

   
 
   

domingo, 10 de fevereiro de 2019

Dica de leitura: O jardineiro que tinha fé


Essa pequena obra prima de Clarissa Pinkola Estés contém diversos contos e pequenas fábulas em que o personagem central é seu querido Tio Zovár, um velho camponês sobrevivente dos campos de trabalhos forçados da Europa durante a 2a. Guerra Mundial, com quem a autora trava diálogos belíssimos, revivendo sua trajetória de persistência e fé, bem como testemunhando sua incrível força quando o ele decide replantar uma floresta inteira, devastada pela sanha civilizatória. 

Segue um pequeno trecho desse tesouro:

"Enquanto caminhávamos, titio matutava: 'Já ouvi pessoas perguntando onde fica o jardim do Éden. Ora! Qualquer lugar que se pise nesta terra é o jardim do Éden. Toda esta terra, por baixo dos trilhos de trens e das rodovias, da sua roupagem gasta, do seu entulho, de tudo isso, é o jardim de Deus – ainda com o frescor do dia em que foi criado.
É verdade que em muitos lugares o Éden está enterrado e esquecido, mas o jardim pode ser restaurado. Onde quer que haja terra sem uso, mal utilizada ou exausta, o Éden ainda está bem ali embaixo.'
Foi assim que aprendi que esta terra, da qual dependíamos para nossa alimentação, nosso ganha-pão, nosso descanso, para a oportunidade de ver a beleza, deveria ser tratada da mesma maneira que esperaríamos tratar os outros e a nós mesmos. O que quer que seja que aconteça a este campo, de algum modo, também acontece a nós."

Recomendo muitíssimo a leitura desse pequeno grande livro que numa narrativa singela e ao mesmo tempo profunda, nos ensina  que a semente nova enraíza com mais profundidade e força em espaços vazios, revirados e destruídos, trazendo em si a renovação, a crença e a fé no movimento sagrado da vida.

Boa leitura!


sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

Ouvir é uma forma de amar - à Mirna e ao Luiz




Para a primeira postagem de 2019, cujo mês inaugural passou como um bólido sem que eu pudesse sequer piscar, vou replicar uma pequena crônica de Luiz Carlos Lisboa, a quem tive o prazer de conhecer quando do lançamento do livro "Nova Era", que contém uma coletânea de textos que eram lidos durante o programa "Música da Nova Era", que foi transmitido pela rádio Eldorado FM, de São Paulo, entre os idos de 1987/1995 e que era apresentado pela querida Mirna Grzich, jornalista, escritora, terapeuta, radialista e principal divulgadora da música "New Age" à época, dona de uma voz celestial e que em 10 março de 2018 partiu para encantar outros planos astrais. Também conheci a Mirna quando do lançamento da obra do Luiz e guardo como relíquia um exemplar da 1a. edição, de 1988, autografado por ambos. Foi um dia duplamente mágico, pois WB estava comigo.

Até hoje lembro que eu ficava ansiosa esperando o domingo chegar para, das 22 às 23h, me deixar transportar pela sonoridade de uma discografia transcendental que incluía, entre outros, Mike Oldfield, Kitaro, Carlos Nakai, Paul Horn, Vangelis, Jean-Michel Jarre, Osamu Kitajima....era uma viagem através do som e, entre uma música e outra, havia a leitura de textos e um convite à meditação e à conexão com o Sagrado.
Sinto-me orfã dessa frequência astral, da sintonia criada pela combinação de sons, palavras, preces e meditações.  
Deixando a saudade de lado, vamos ao texto e boa viagem, como diria a saudosa Mirna:

"John Cage, artista e criador, fala do que sabe: "Onde quer que estejamos, o que ouvimos é ruído. Quando o ignoramos, ele nos incomoda. Quando o escutamos, descobrimos que é fascinante". Cage está nos lembrando que a resistência aos fatos é um tipo de surdez, de cegueira, de recusa. Em estado de amor - no domínio da luz, do som, do tato - somos tudo aquilo de que nos aproximamos. Por isso, ouvir é uma forma de amar".


LISBOA, Luiz Carlos. Nova Era - Seleta de textos do Programa "Música da Nova Era". Apresentação e discografia essencial de Mirna A. Grzich, Livraria Cultura Editora. 1a. ed: SP, 1988, p.69.
   
Há vários cd's (tenho quase todos) que vinham como brinde na Revista Meditação e onde se pode ouvir a maravilhosa voz da Mirna Grzich. 

Segue o link do primeiro deles:




segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

Dilema: + 1 ou - 1?


Dilema, palavra de origem grega dillemma.atos, tem como elementos fundantes do seu conceito (dupla proposição, di- "dois" e lemma- "premissa, algo aceito como verdade") a contradição e a escolha. Ou seja, filosoficamente falando, estou diante de um dilema quando o meu raciocínio parte de duas premissas contraditórias e mutuamente excludentes, mas que paradoxalmente terminam por legitimar uma mesma conclusão.


No caso, estou diante de um dilema: 2019, mais um ano de vida ou menos um ano de vida???  em pleno dia 31 de dezembro, época de celebrações, comemorações e muitos planos para o ano vindouro. O mundo em festa e eu em profusão de questionamentos, explodindo tal qual fogos de artifício dentro da minha cabeça de menina maluquinha, apesar dos 53 anos de estrada....


O fato do "ninho estar vazio" colabora para este estado meditabundo e meio outsider....deveras complicado, como diria Hélio Pellegrino em carta a Fernando Sabino, no prefácio de "O Encontro Marcado", sinto a solidão atravessando-me como um dardo e em plena treva (La noche escura del alma, poema lindo do século XVI, escrito por São João da Cruz, poeta espanhol e místico cristão). 

Na carta, Pellegrino joga luzes sobre outro grande dilema: "O homem, quando jovem, é só, apesar de suas múltiplas experiências. Ele pretende, nessa época, conformar a realidade com suas mãos, servindo-se dela, pois acredita que, ganhando o mundo, conseguirá ganhar-se a si próprio. Acontece, entretanto, que nascemos para o encontro com o outro e não o seu domínio. Encontrá-lo é perdê-lo, é contemplá-lo na sua libérrima existência, é respeitá-lo e amá-lo na sua total e gratuita inutilidade. O começo da sabedoria consiste em perceber que temos e teremos as mãos vazias, na medida em que tenhamos ganho ou pretendamos ganhar o mundo. Neste momento, a solidão nos atravessa como um dardo. É meio dia em nossa vida, e a face do outro nos contempla como um enigma. Feliz daquele que, ao meio-dia, se percebe em plena treva, pobre e nu. Este é o preço do encontro, do possível encontro com o outro. A construção de tal possibilidade passa a ser, desde então, o trabalho do homem que merece o seu nome".

No último dia do ano de 2018 ser tragada por esse turbilhão de pensamentos, sentimentos contraditórios, planos para o futuro e ter  ainda que preparar guloseimas para o jantar é de lascar, e no meio disso tudo, arrumar tempo para escrever besteiras e esvaziar o "peso" no meu divã virtual. 

O dilema está posto e, apesar da cumulonimbus que estacionou irregularmente sobre a minha cachola (vai levar multa!), eu escolho acreditar que terei mais 365 dias gloriosos, com todas as possibilidades de inovar, reinventar, errar e tentar de novo, fazendo o que entendo o mais apropriado. Pode parecer lugar comum dizer que a vida é tão rara, mas não é! Cada existência é uma dádiva sagrada que merece ser celebrada e bem aproveitada, para que ao final, no momento da partida, o último e libertador sopro seja de agradecimento e de alegria por ter conseguido cumprir a missão (dharma). 

Vamos lá para 2019 e fazer valer a pena a estadia terrestre, uma importante e prazerosa etapa da nossa jornada rumo à eternidade! 


      



quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

Novo tempo



Soprando pra longe os restos de um ano um tanto tormentoso, marcado por um carrossel de emoções ambíguas, lágrimas, despedidas e muitas mudanças.
Nem tudo foram espinhos nesse mar de flores. Há muito pra comemorar, por exemplo, o enfrentamento de tantas adversidades sem necessidade de "muletas" e coadjuvantes. Sempre fui eu, de cara limpa e coração aberto. 
Período de aumento da capacidade de perceber as coisas como realmente são, sem a lente embaçada pelo Véu de Maya. A realidade da forma mais crua, sem distorções românticas e sem as lentes limitadoras dos meus pré-condicionamentos e pré-conceitos. Tudo é e sempre será, independente da minha compreensão sobre isso.
Um novo tempo se aproxima e eu sigo soprando ao vento da vida as sementes dos meus de desejos, dos meus anseios e das minhas esperanças. A eterna magia do recomeço, a ideia sempre presente de que "cada respiro é uma segunda chance", uma aventura e um caminho desconhecido a se trilhar, com a força e a leveza de quem sabe, no íntimo, que pra voar e aproveitar todas as oportunidades é preciso desnudar-se da própria e frágil origem.
Num sopro vigoroso, corajoso e libertador espalho versos, bendições e alguns lamentos de saudade...pronta para o que vier, para um novo ano, um novo tempo e novos "eus" que ainda brotarão de mim.  



    

domingo, 21 de outubro de 2018

Filha do Tempo Presente



O poeta místico persa Udin Rumi, fundador da ordem dos dervixes, costumava dizer que o homem de bem "é filho de tempo presente e da tarefa perfeita". As lembranças do que já aconteceu pouco interessam àquele que vive integralmente sua vida: seus planos para o futuro têm o seu lugar, mas são apenas projetos. "Filho do tempo presente", o homem de bem a que se refere Udin Rumi está todo tempo aqui, e vive eternamente o agora. Porque está vivo e põe a alma em cada coisa que faz, realiza suas tarefas do modo mais próximo possível da perfeição.


Luiz Carlos Lisboa
Nova Era


Esse texto reflete bem o sentimento que me invade nesse momento e através dele expresso minha gratidão a todos que, de alguma forma, estiveram e ainda permanecem ao meu lado nesse período tão significativo da minha vida profissional e pessoal. 

Tempo valioso, de escuta, aprendizado e necessário realinhamento. 

Na trilha do meu darma, sigo trabalhando com amor e afinco, como sempre fiz, certa de estar cumprindo, da melhor forma possível, a missão que me foi destinada.

Sou filha do tempo presente.




 

  







terça-feira, 28 de agosto de 2018

Nigredo



Nigredo é uma palavra oriunda do Latim e pode ser traduzida como escuro. Na Mística é utilizada para descrever o primeiro passo do processo alquímico, qual seja: a morte espiritual, estágio de decomposição ou putrefação. Ato contínuo, tem-se os ciclos da purificação (albedo), do despertar (citrinitas) e o da iluminação (rubedo).  

Para Jung esta primeira etapa está relacionada à aceitação e integração da sombra, ou seja, das emoções, intuições, percepções e desejos que escondemos nos porões da psique, em razão da inadequação com os ditos padrões morais e éticos de uma determinada época e grupo social ou por revelarem defeitos e imperfeições que temos e não aceitamos.

Acessar essas áreas obscuras e encarar esse lado sombrio não é uma tarefa das mais fáceis e exige a coragem que tiveram Hércules, Orfeu, Enéias e, tempos depois, Dante e Virgílio, ao se aventurarem no Barco de Caronte, pelo rio do infortúnio.

A travessia desse deserto ou a passagem pela noite escura da alma, como bem definiu São João da Cruz, precisa ser feita a fim de que a nossa essência seja acessada, uma verdadeira itinerância em busca de discernimento, crescimento e aprimoramento espiritual.

Bem sei que desse ponto em diante não existe recuo. É um caminho sem volta. Sempre em frente e enfrente! Essa noite sombria é um divisor de águas, o prenúncio da transmutação, ressignificação e libertação de tudo que impede o fluir natural do eu e da vida

Há um oásis a espera daqueles que enfrentam as águas pantanosas do Estige e delas saem renovados e fortalecidos. E é esse sopro benfazejo que tem guiado a minha jornada, insuflando coragem em minhas entranhas e mantendo acesas as chamas dos meus ideais. É também ele que sussurra em meus ouvidos: - Não há o que temer, você está no caminho certo e fazendo o melhor possível. Siga em frente e mantenha-se em sintonia com os seus princípios e valores.

E assim, prossigo e confio. 

Sob a capa de carvão já vislumbro o fulgor do diamante.