sábado, 10 de agosto de 2019

Uma questão de vida.



De frente para o espelho, a três meses de mudar a faixa de rotação (5.4), noto que continuo a mesma de 45 anos atrás, pelo menos na essência tagarela e questionadora, já que meus cabelos....quanta diferença!
Lembro-me que passava horas deitada no quintal,  ainda menina, olhando para céu e prestando atenção no movimento ininterrupto das nuvens, querendo saber para onde elas estavam indo e, muitas vezes, reconhecendo nelas formatos de variados animais, que estavam ali disfarçados para sobreviverem aos perigos da selva....ainda posso sentir o calor gostoso do piso feito de caquinhos de ladrilhos vermelhos nas minhas costas.
Mais tarde, já na adolescência, me pegava querendo saber quem eram aquelas pessoas que estavam sentadas nos assentos próximos às janelas do ônibus que fazia o trajeto contrário àquele em que eu estava, a caminho da escola....me perguntava se eram felizes, se eram amadas, para onde estavam indo....até hoje essa sensação de ter para onde e para quem voltar depois de um dia de trabalho é muito forte na minha vida. 
Realmente, como bem referido numa pesquisa que li tempos atrás (https://ciencia.estadao.com.br/blogs/ciencia-diaria/personalidade-na-infancia-pode-dar-fortes-indicios-de-comportamento-na-fase-adulta/), muito da nossa personalidade se forma na infância e determina comportamentos da nossa vida adulta. Sinto-me contemplada nesse estudo, pois comigo não foi diferente. Eu não mudei absolutamente nada da criança curiosa, destemida, impulsiva e inquieta que eu fui. 
Minha mãe, na quarta gravidez, conta que rezou muito pra que viesse mais uma menina, pois já tinha a Eta, o Tuca e o Pedro e queria muito empatar o jogo com dois casais, ela só não esperava que a menina (eu) seria tão ou mais sapeca que os seus filhos homens, uma perfeita maria-moleca que nem de longe seria entretida com bonecas no berço, laços cor-de-rosa e coisas do gênero.....me encantava a liberdade da rua, a dança sensual da pipa no ar, os jogos de bola, taco....o frio na barriga nas descidas com carrinho de rolemã, o desafio de acertar o maior número possível de bolinhas de gude dentro do triângulo, o rodopiar sem fim do pião de madeira... 
Com tempo, as brincadeiras foram substituídas pela paixão pelos livros, pela poesia, pela música e as "viagens" sem sair do lugar que só a arte poderia propiciar. Também nessa época passei a gostar de customizar minhas camisetas, alpargatas e transformar minhas bijuterias em peças diferentes e únicas. Sim, eu era quase uma hippie kkk.  
E nessa retrospectiva vejo que bastava um olhar atento para a criança e para a adolescente que eu fui, para ter noção da mulher que eu me tornaria na vida adulta. As pistas estavam todas lá. Bem sei que as experiências que vivi nessa caminhada forjaram algumas características pessoais e acabou determinando comportamentos que mantenho no dia-a-dia, mas o principal, o essencial, já estava em mim desde menina e só foi reforçado com o passar dos anos.
Nessa altura do campeonato resta claro pra mim que quem nasceu para surfar nas tempestades, nunca será feliz deitada nos verdes campos da calmaria. 
É uma questão de vida ou morte.
Eu, como sempre, escolho a vida. 

domingo, 21 de julho de 2019

A vida não é filme




Que a vida não é filme eu já tinha entendido, bem antes da música do Paralamas do Sucesso e, depois de devorar, em êxtase e num átimo, os 55 episódios das 04 temporadas de Outlander, ficou claro pra mim que a vida é uma série, com drama, romance, fantasia e demais ingredientes tão bem delineados na série de televisão britânico-americana que me hipnotizou nos últimos dias, roteiro baseado na saga literária "A Viajante do Tempo", da autora Diana Gabaldon.
Entre heróis e algozes, amantes e traidores, todos, sem exceção, trocam de papéis no decorrer da "trama" e, também por isso, é que a história torna-se emocionante, excitante e marcante, tornando irrelevante, ao fim e ao cabo, o viver e o morrer, se nesse intervalo não houver um propósito, uma razão, uma centelha divina que nos faça fazer valer a jornada.
Ficção e realidade, verdades benditas e mentiras necessárias....é nessa espiral que nos locomovemos e por vezes nos debatemos para não ceder à aparente calmaria dos abismos. É uma luta ininterrupta, travada todos os dias em nome de uma certeza maior de que nada será em vão e que, ao final do dia, as feridas estarão curadas, tal qual na história de Prometeu.
E no mar tormentoso dos dilemas da condição humana nem sempre poderemos contar com um "belo mocinho" para nos resgatar dos naufrágios ou se submeter as mais repugnantes e dolorosas torturas para nos manter a salvo. Estar à deriva e só, pode ser a única opção no cardápio do dia. É vital estar preparado pra isso.
A vida não é um filme, é uma série....uma série de acontecimentos, de sentimentos e, por consequência, de reiteradas cicatrizes. O bom é que termina um episódio e outro recomeça logo em seguida, comportando, inclusive, mudanças drásticas no rumo da narrativa, até que o Roteirista, Senhor do Tempo, resolva colocar fim na história sem que sequer saibamos se esse será, ou não, o último e derradeiro episódio da temporada.
Je suis prêt et toi?

    







       

sábado, 25 de maio de 2019

Quando o mal do mundo é o outro




Dia desses li uma pequena frase que me fez pensar dias sobre suas possíveis implicações: "A cura da dor do mundo, começa com a nossa própria cura".
Parece simples, mas a assertiva nos traz uma responsabilidade gigante e uma necessidade de voltar o olhar para dentro, nós que estamos tão acostumados a imputar ao outro e a fatores externos todas as culpas pelos nossos fracassos, frustações e infelicidade.
A busca pela "própria cura" implica na aceitação da nossa condição humana, iminentemente imperfeita e falível. Requer a assunção dos erros cometidos e a coragem de contabilizar os resultados nefastos de atitudes impensadas e extremamente lesivas ao próximo.
Que tal olhar-se no espelho, deixar cair a máscara, acariciar feridas e acolher vulnerabilidades, medos e desassossegos, livrar-se da capa de super-homem e aceitar-se frágil e contraditório? Difícil, não é?
O x da questão é que estamos pouco dispostos a enfrentar a Hydra de Lerna que habita no recôndito de todo nós e encarar suas múltiplas, horrendas e regenerativas facetas com coragem e hombridade, decepando e queimando cada uma de suas cabeças com o fogo da persistência e da determinação.
O desafio é colossal e por isso não é de se admirar o quanto buscamos distrações externas e adiamos esse "encontro", desculpas que revelam o nível de resistência que temos em enfrentar nossas próprias sombras e prosseguir apesar delas e com elas. Alguns chegam ao cúmulo de querer que outros realizem essa hercúlea tarefa em seu lugar e não se conformam quando são confrontados com os efeitos da contumaz covardia e da cômoda paralisia que os acompanham durante parte de suas trajetórias pessoais e profissionais
E então vem a inexorável vida e cobra de forma implacável a fatura dos anos passados em brancas nuvens, vividos na ilusão confortável e perfumada dos véus de Samsara,  e nesse momento crucial há quem prefira adotar a postura de vítima e o discurso oportunista de que o mal do mundo é outro, submergindo, mais uma vez, em seu pântano particular, até sufocar qualquer sinal ou apelo íntimo por mudança.
"O mundo é de Deus, mas Deus o aluga aos corajosos". Ditado Espanhol
Que tenhamos coragem para permanecermos firmes em nossa jornada a fim de que a nossa missão pessoal seja cumprida.


     
 

segunda-feira, 20 de maio de 2019

Trabalho ou castigo?

Há tempos venho observando o quanto o trabalho pode ser um fardo penoso para algumas pessoas a ponto de adoecê-las, diminuindo sensivelmente sua produtividade e, invariavelmente, impactando negativamente o ambiente corporativo e a todos que, de alguma forma, lidam com indivíduos desmotivados e sem perspectivas. 
A desmotivação pode estar alicerçada em diferentes causas, desde a insatisfação com as tarefas a serem desempenhadas, ausência de contrapartida financeira adequada, até a sensação de impotência em exercer determinadas atividades que não geram resultados perceptíveis no contexto social, o famoso "enxugar gelo". Não se discute que há muitas situações que abalam o entusiasmo de qualquer cristão contudo, manter um contínuo padrão mental de insatisfação é que são elas. 
Ao mesmo tempo em que se percebe uma total falta de sintonia e de conexão entre quem faz com aquilo que se faz, também salta aos olhos o quanto pessoas infelizes com as funções que desempenham não se movimentam para buscar uma atividade gratificante e que lhe tragam mais prazer e possam expandir as suas potencialidades.
Em mais de 30 anos de serviço público tenho convivido com servidores que encontram-se em situação semelhante, desmotivados e sem grande aderência aos compromissos e às missões do órgão, sem dizer da cotidiana ausência de entusiasmo e de propósitos na execução das tarefas que são de sua atribuição. O "sistema" contribui, algumas vezes, para esse massacre, mas há casos em que a paralisia é inerente ao ser e aos seu contexto pessoal.  
Ligados no modo "automático" fazem o estritamente necessário, não se envolvem em outras atividades e nem se sentem estimulados a buscar inovações ou experimentar novos desafios no campo profissional. 
Os sentimentos de pertencimento e de identidade são quase inexistentes, salvos pelos crachás e funcionais que lhes pesam como grilhões nos bolsos e pescoços. Acostumados ao voluntário cárcere, arrastam orgulhosos seus lamentos e ais pelos corredores dos órgãos e não cogitam sequer mudar de vida e dar espaço para que outros possam ocupar aquele posto de trabalho.....são tantos esperando para serem nomeados e finalmente tomar posse em um cargo público, disputado em concursos cada vez  mais difíceis e escassos.
Esse calvário transforma inevitavelmente qualquer trabalho num castigo e, antes de imputar a fatores externos a culpa pelo martírio diário, há que se fazer uma varredura interna para descobrir se a razão de tanta insatisfação não é fruto de um descontentamento do ser consigo mesmo, sombra que acompanhará a pessoa onde quer que ela vá, do chão da fábrica à cadeira da presidência da corporação.    
Enfim, essa reflexão não veio por acaso, tem muito do meu dia e também, pelo contraste da narrativa, remete ao belíssimo texto do filósofo e poeta árabe, Khalil Gibran, inserido na obra O Profeta, que li dias atrás e onde ele sustenta que o trabalho é o amor tornado visível. 
A obra é conjunto de meditações poéticas sobre diversos temas e, em determinado momento um fazendeiro lhe pede que fale sobre o trabalho. Ele assim responde:
".... E todo trabalho é vazio, exceto quando há amor;
E quando trabalham com amor se aproximam de si mesmos, e uns dos outros, e de Deus.
E o que é trabalhar com amor?
É tecer uma roupa com os fios do coração, como se aqueles que amam fossem vesti-la.
É construir uma casa com afeto, como se aqueles que amam fossem morar sob esse teto.
É plantar sementes com ternura e colher com alegria, como se aqueles que amam fossem comer desse fruto.
É preencher tudo o que criarem com o sopro de seu próprio espírito,
E saber que todos os que se já se foram os observam neste momento". 

Bem-aventurados os que trabalham com prazer e alegria! Dormem em paz e com a consciência tranquila, pois apesar de todas as dificuldades e obstáculos, não deixam de desempenhar da melhor forma possível as suas tarefas!

sábado, 4 de maio de 2019

Os 10 desafios



Desafio nº 1 - Aprender a bastar-se e a distanciar-se de situações, relações, pessoas e emoções predadoras/tóxicas;

Desafio nº 2 -  Envelhecer com saúde física, emocional e espiritual e com uma dose extra de bom humor, pois a queda hormonal é uma amostra grátis do inferno;

Desafio nº 3 - Olhar para o mundo e para as paisagens rotineiras com se fosse sempre a primeira vez ou a última;

Desafio nº4 - Esvaziar as "gavetas" do guarda-roupas e as da alma, eliminando tudo que não já não cabe mais, inclusive os enfeites do ego;

Desafio nº 5 - Diminuir expectativas, cobranças e sobrecargas que ocupam demasiado espaço na bagagem e atrapalham a caminhada;

Desafio nº 6 - Observar e ouvir com atenção e só falar o que for necessário e útil, lembrando que silenciar os ruídos internos e calar as ruminações desnecessárias faz parte do pacote;

Desafio nº 7 - Exercitar a paciência, o perdão e a compaixão consigo e com os outros, pois todos estão em processo constate de aprendizado, cada qual no seu ritmo;

Desafio nº 8 - Ser assertivo, inclusive para dizer não com naturalidade para tudo aquilo que vai contra as suas prioridades e valores;

Desafio nº 9 -  Respeitar-se a amar-se acima de tudo, pois se você não estiver bem consigo mesmo, nada estará bem ao seu redor e;

Desafio nº 10 - Cumprir, ao mesmo tempo, os 9 desafios acima descritos, dia após dia, até o final da existência.  

Da série: De mim para mim mesma.

sábado, 16 de março de 2019

Apenas ouça.




Ouvindo "I hear you now", de John Anderson e Vangelis, me veio a mente um trecho do belíssimo poema "Hear the voice", de William Blake:

                                                   "Hear the voice of the Bard,

                                            Who present, past, and future, sees;

                                                   Whose ears have heard

                                                      The Holy Word

                                              That walk'd among the ancient trees...."


Coincidentemente, celebramos hoje, 16 de março, o Dia Nacional do Ouvidor, função que exerci até dias atrás e que me fez compreender o quão delicada e complexa é a missão de ouvir o outro, bem como ouvir a mim mesma. 

Ao contrário dos Bardos referidos por Blake, trovadores que disseminavam histórias e cantigas pela Europa de antigamente, o tempo todo cantando e contando a vida em suas múltiplas facetas, ser Ouvidor é estar disponível para ouvir o enredo da vida dos outros, estar atento para os sons e para as vozes do mundo e para o silêncio das entrelinhas, ter controle da própria fala e dos ruídos internos, que tanto interferem no processo do escutar mais profundo.

A vida, desde a concepção, está ligada à fala e à escuta. O primeiro órgão a se formar no feto é o ouvido e é através da audição que o bebê ouve o pulsar do coração materno e identifica a voz da mãe, o timbre que é sinônimo de paz, aconchego e segurança.

Rudolf Steiner, filósofo e fundador da Antroposofia, sustenta que não temos apenas cinco sentidos, mas sim 12 e, dentre eles, a audição pertence a um grupo superior, mais requintado e conectado à alma, ao pensamento e à consciência. Eu concordo com ele,

Mas se ouvir é tão importante, porque no mundo de hoje sobram falantes e faltam ouvintes???? Much ado about nothing, como diria o outro William, o Shakespeare. 

Psiu!!!! Silêncio, por favor!!!! Quem fala muito, pouco ou quase nada ouve!

Vivemos numa era de faladores ansiosos que interrompem o interlocutor a todo instante, sem paciência para aguardar o término da fala do outro, uma geração de egocêntricos e faladores compulsivos, que discursam longamente sobre si e suas  visões de mundo, transformando qualquer conversa num monólogo interminável e enfadonho. Não há pausa, tempo, espaço e disponibilidade para o próximo.

Escutar com atenção e interesse renovados é um bálsamo para a febre humana que faz com que pessoas se desconectem de tudo e de todos, numa espécie de auto-exílio emocional. Em decorrência dessa "não escuta" um dia acabarão descobrindo que aquele velho amigo não passa de um mero desconhecido ou, que o companheiro de anos é um mistério, pois o "ouvir no automático" virou rotina, tornou-se um vazio de sentidos, quiçá uma espécie de surdez seletiva, tão comum na atualidade.

Em tempos de redes sociais, profusão de selfs artificiais, dizeres superficiais, do tipo "cola e copia", urge resgatar a verdadeira escuta, plena de sentimentos e sentidos que digam mais sobre o ser e o estar presente no momento, com a mente e o coração abertos para a beleza da vida em todas as suas circunstâncias.  

Bem-aventurados aqueles que compreenderam que o amor começa na escuta, quando se está em silêncio, por dentro e por fora.             




sábado, 23 de fevereiro de 2019

Ainda bem....




Ainda bem que temos a Arte em todas as suas nuances e formas de expressão a nos dar refúgio e conforto nos momentos mais sombrios da existência humana....
A música, a poesia, a fotografia e tudo mais que nos arrebate a alma e o coração, nos salvando da dor das nossas próprias imperfeições e dos ruídos internos, tantos ais e lamentações....
Acordes, rimas e paisagens que num passe de mágica nos sequestram das garras amarguradas do perverso cotidiano de nós mesmos, bálsamos a refrescar feridas permanentes e a nos transportar para outras dimensões, outras vidas e outras tantas possibilidades.
A Arte abre um canal de conexão entre nós, o Divino e o Sagrado.
Nem todos conseguem transpor esse portal, pois a travessia requer mentes e corações sintonizados com o numinoso, com tudo que transcenda nossa pobre condição humana, racional e materialista.
Aventurar-se pelo desconhecido, deixar-se conduzir pela intuição, abandonar o controle, libertar-se das amarras e das crenças paralisantes e limitadoras, desaprender e transbordar.
Há tantas surpresas nessa viagem e nem é preciso perder a lucidez ou usar de subterfúgios químicos para penetrar nesse território mágico, quiçá sair do lugar, do país, do próprio corpo.
Vamos lá, esse é um convite para apurar a escuta, desembaçar a visão, desentorpecer os sentidos e brincar de ver e sentir tudo como se fosse a primeira vez....saborear cada dia como se fosse o último das nossas vidas.

   
 
   

domingo, 10 de fevereiro de 2019

Dica de leitura: O jardineiro que tinha fé


Essa pequena obra prima de Clarissa Pinkola Estés contém diversos contos e pequenas fábulas em que o personagem central é seu querido Tio Zovár, um velho camponês sobrevivente dos campos de trabalhos forçados da Europa durante a 2a. Guerra Mundial, com quem a autora trava diálogos belíssimos, revivendo sua trajetória de persistência e fé, bem como testemunhando sua incrível força quando o ele decide replantar uma floresta inteira, devastada pela sanha civilizatória. 

Segue um pequeno trecho desse tesouro:

"Enquanto caminhávamos, titio matutava: 'Já ouvi pessoas perguntando onde fica o jardim do Éden. Ora! Qualquer lugar que se pise nesta terra é o jardim do Éden. Toda esta terra, por baixo dos trilhos de trens e das rodovias, da sua roupagem gasta, do seu entulho, de tudo isso, é o jardim de Deus – ainda com o frescor do dia em que foi criado.
É verdade que em muitos lugares o Éden está enterrado e esquecido, mas o jardim pode ser restaurado. Onde quer que haja terra sem uso, mal utilizada ou exausta, o Éden ainda está bem ali embaixo.'
Foi assim que aprendi que esta terra, da qual dependíamos para nossa alimentação, nosso ganha-pão, nosso descanso, para a oportunidade de ver a beleza, deveria ser tratada da mesma maneira que esperaríamos tratar os outros e a nós mesmos. O que quer que seja que aconteça a este campo, de algum modo, também acontece a nós."

Recomendo muitíssimo a leitura desse pequeno grande livro que numa narrativa singela e ao mesmo tempo profunda, nos ensina  que a semente nova enraíza com mais profundidade e força em espaços vazios, revirados e destruídos, trazendo em si a renovação, a crença e a fé no movimento sagrado da vida.

Boa leitura!


sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

Ouvir é uma forma de amar - à Mirna e ao Luiz




Para a primeira postagem de 2019, cujo mês inaugural passou como um bólido sem que eu pudesse sequer piscar, vou replicar uma pequena crônica de Luiz Carlos Lisboa, a quem tive o prazer de conhecer quando do lançamento do livro "Nova Era", que contém uma coletânea de textos que eram lidos durante o programa "Música da Nova Era", que foi transmitido pela rádio Eldorado FM, de São Paulo, entre os idos de 1987/1995 e que era apresentado pela querida Mirna Grzich, jornalista, escritora, terapeuta, radialista e principal divulgadora da música "New Age" à época, dona de uma voz celestial e que em 10 março de 2018 partiu para encantar outros planos astrais. Também conheci a Mirna quando do lançamento da obra do Luiz e guardo como relíquia um exemplar da 1a. edição, de 1988, autografado por ambos. Foi um dia duplamente mágico, pois WB estava comigo.

Até hoje lembro que eu ficava ansiosa esperando o domingo chegar para, das 22 às 23h, me deixar transportar pela sonoridade de uma discografia transcendental que incluía, entre outros, Mike Oldfield, Kitaro, Carlos Nakai, Paul Horn, Vangelis, Jean-Michel Jarre, Osamu Kitajima....era uma viagem através do som e, entre uma música e outra, havia a leitura de textos e um convite à meditação e à conexão com o Sagrado.
Sinto-me orfã dessa frequência astral, da sintonia criada pela combinação de sons, palavras, preces e meditações.  
Deixando a saudade de lado, vamos ao texto e boa viagem, como diria a saudosa Mirna:

"John Cage, artista e criador, fala do que sabe: "Onde quer que estejamos, o que ouvimos é ruído. Quando o ignoramos, ele nos incomoda. Quando o escutamos, descobrimos que é fascinante". Cage está nos lembrando que a resistência aos fatos é um tipo de surdez, de cegueira, de recusa. Em estado de amor - no domínio da luz, do som, do tato - somos tudo aquilo de que nos aproximamos. Por isso, ouvir é uma forma de amar".


LISBOA, Luiz Carlos. Nova Era - Seleta de textos do Programa "Música da Nova Era". Apresentação e discografia essencial de Mirna A. Grzich, Livraria Cultura Editora. 1a. ed: SP, 1988, p.69.
   
Há vários cd's (tenho quase todos) que vinham como brinde na Revista Meditação e onde se pode ouvir a maravilhosa voz da Mirna Grzich. 

Segue o link do primeiro deles:




segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

Dilema: + 1 ou - 1?


Dilema, palavra de origem grega dillemma.atos, tem como elementos fundantes do seu conceito (dupla proposição, di- "dois" e lemma- "premissa, algo aceito como verdade") a contradição e a escolha. Ou seja, filosoficamente falando, estou diante de um dilema quando o meu raciocínio parte de duas premissas contraditórias e mutuamente excludentes, mas que paradoxalmente terminam por legitimar uma mesma conclusão.


No caso, estou diante de um dilema: 2019, mais um ano de vida ou menos um ano de vida???  em pleno dia 31 de dezembro, época de celebrações, comemorações e muitos planos para o ano vindouro. O mundo em festa e eu em profusão de questionamentos, explodindo tal qual fogos de artifício dentro da minha cabeça de menina maluquinha, apesar dos 53 anos de estrada....


O fato do "ninho estar vazio" colabora para este estado meditabundo e meio outsider....deveras complicado, como diria Hélio Pellegrino em carta a Fernando Sabino, no prefácio de "O Encontro Marcado", sinto a solidão atravessando-me como um dardo e em plena treva (La noche escura del alma, poema lindo do século XVI, escrito por São João da Cruz, poeta espanhol e místico cristão). 

Na carta, Pellegrino joga luzes sobre outro grande dilema: "O homem, quando jovem, é só, apesar de suas múltiplas experiências. Ele pretende, nessa época, conformar a realidade com suas mãos, servindo-se dela, pois acredita que, ganhando o mundo, conseguirá ganhar-se a si próprio. Acontece, entretanto, que nascemos para o encontro com o outro e não o seu domínio. Encontrá-lo é perdê-lo, é contemplá-lo na sua libérrima existência, é respeitá-lo e amá-lo na sua total e gratuita inutilidade. O começo da sabedoria consiste em perceber que temos e teremos as mãos vazias, na medida em que tenhamos ganho ou pretendamos ganhar o mundo. Neste momento, a solidão nos atravessa como um dardo. É meio dia em nossa vida, e a face do outro nos contempla como um enigma. Feliz daquele que, ao meio-dia, se percebe em plena treva, pobre e nu. Este é o preço do encontro, do possível encontro com o outro. A construção de tal possibilidade passa a ser, desde então, o trabalho do homem que merece o seu nome".

No último dia do ano de 2018 ser tragada por esse turbilhão de pensamentos, sentimentos contraditórios, planos para o futuro e ter  ainda que preparar guloseimas para o jantar é de lascar, e no meio disso tudo, arrumar tempo para escrever besteiras e esvaziar o "peso" no meu divã virtual. 

O dilema está posto e, apesar da cumulonimbus que estacionou irregularmente sobre a minha cachola (vai levar multa!), eu escolho acreditar que terei mais 365 dias gloriosos, com todas as possibilidades de inovar, reinventar, errar e tentar de novo, fazendo o que entendo o mais apropriado. Pode parecer lugar comum dizer que a vida é tão rara, mas não é! Cada existência é uma dádiva sagrada que merece ser celebrada e bem aproveitada, para que ao final, no momento da partida, o último e libertador sopro seja de agradecimento e de alegria por ter conseguido cumprir a missão (dharma). 

Vamos lá para 2019 e fazer valer a pena a estadia terrestre, uma importante e prazerosa etapa da nossa jornada rumo à eternidade! 


      



quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

Novo tempo



Soprando pra longe os restos de um ano um tanto tormentoso, marcado por um carrossel de emoções ambíguas, lágrimas, despedidas e muitas mudanças.
Nem tudo foram espinhos nesse mar de flores. Há muito pra comemorar, por exemplo, o enfrentamento de tantas adversidades sem necessidade de "muletas" e coadjuvantes. Sempre fui eu, de cara limpa e coração aberto. 
Período de aumento da capacidade de perceber as coisas como realmente são, sem a lente embaçada pelo Véu de Maya. A realidade da forma mais crua, sem distorções românticas e sem as lentes limitadoras dos meus pré-condicionamentos e pré-conceitos. Tudo é e sempre será, independente da minha compreensão sobre isso.
Um novo tempo se aproxima e eu sigo soprando ao vento da vida as sementes dos meus de desejos, dos meus anseios e das minhas esperanças. A eterna magia do recomeço, a ideia sempre presente de que "cada respiro é uma segunda chance", uma aventura e um caminho desconhecido a se trilhar, com a força e a leveza de quem sabe, no íntimo, que pra voar e aproveitar todas as oportunidades é preciso desnudar-se da própria e frágil origem.
Num sopro vigoroso, corajoso e libertador espalho versos, bendições e alguns lamentos de saudade...pronta para o que vier, para um novo ano, um novo tempo e novos "eus" que ainda brotarão de mim.  



    

domingo, 21 de outubro de 2018

Filha do Tempo Presente



O poeta místico persa Udin Rumi, fundador da ordem dos dervixes, costumava dizer que o homem de bem "é filho de tempo presente e da tarefa perfeita". As lembranças do que já aconteceu pouco interessam àquele que vive integralmente sua vida: seus planos para o futuro têm o seu lugar, mas são apenas projetos. "Filho do tempo presente", o homem de bem a que se refere Udin Rumi está todo tempo aqui, e vive eternamente o agora. Porque está vivo e põe a alma em cada coisa que faz, realiza suas tarefas do modo mais próximo possível da perfeição.


Luiz Carlos Lisboa
Nova Era


Esse texto reflete bem o sentimento que me invade nesse momento e através dele expresso minha gratidão a todos que, de alguma forma, estiveram e ainda permanecem ao meu lado nesse período tão significativo da minha vida profissional e pessoal. 

Tempo valioso, de escuta, aprendizado e necessário realinhamento. 

Na trilha do meu darma, sigo trabalhando com amor e afinco, como sempre fiz, certa de estar cumprindo, da melhor forma possível, a missão que me foi destinada.

Sou filha do tempo presente.