No universo corporativo falar de válvulas de calibração do sistema interno de fluxos, processos de trabalho e do próprio agir comunicacional dos atores que o compõem é discorrer, necessariamente, sobre a Ouvidoria e as suas multidimensionalidades, analisando sua modelagem estrutural que valida a ideia de poder distribuído, a partir do momento em que tonifica a conexão e a corresponsabilidade decisória entre a Organização e seus públicos, refutando a matiz engessada de gestão, favorecendo no plano interno a criação de sentido para o funcionário em relação à tarefa que executa diariamente e estimulando a construção progressiva de zonas de autonomia que ampliam as potencialidades dos servidores e colaboradores, bem como da Instituição como um todo.
Em tempos de pandemia em que a busca pela reinvenção
das Organizações públicas e privadas passou a ser o novo campo de batalha é
fundamental refletir sobre o fenômeno da liderança regenerativa e a partir
desse paradigma proposto por John Hardman, expoente e renomado especialistas em
organizações regenerativas e autor de importantes obras[1]
sobre o tema, redesenhar a arquitetura e a gestão organizacionais, a partir de
um processo de liderança comprometido com a sustentabilidade.
Nesse aspecto, cabe destacar que o
movimento regenerativo ora em destaque não está circunscrito apenas à ação de restaurar
os danos socioambientais causados pela atividade humana, mas diz respeito,
principalmente, a novas formas de compreensão, consciência (crenças, valores, disposições) e
ações, capazes de oxigenar e calibrar estruturas organizacionais cada vez mais demandadas
para estarem em conformidade com regras de compliance e accountability,
cobrança essa que mal gerenciada pode levar à rigidez, à ausência de
flexibilidade e à redução do crescimento e, consequentemente, da influência da
Organização junto ao segmento do qual faz parte.
Rogério Silva[2]
afirma que Hardman, com fulcro nos quatro quadrantes da Teoria Integral desenvolvida
pelo psicólogo Ken Wilbe, infere que “o desenvolvimento daqueles que empreendem
e lideram organizações regenerativas passa pela articulação de diferentes
elementos: (a) o mundo individual subjetivo, que compreende propósito, visão de
mundo, valores, ética e criatividade; (b) os comportamento individuais
abrangendo competências relacionais e vinculares, como escuta, empatia,
argumentação, etc.; (c) o mundo intersubjetivo, que engloba vida em grupo,
propósito coletivo, cultura, lugares sociais, etc.; (d) as ações sociais
coletivas, dos sistemas organizacionais, das normas, das formas de governo, etc”.
De acordo Silva, após estabelecidos os quadrantes acima
referidos, emergem ainda outros três elementos que compõem o conceito de
liderança regenerativa: “(1) o campo de emergência da consciência e
empoderamento, que Hardman chama primeira camada do solo necessário ao cultivo
da criatividade, coragem e compromisso com propósitos coletivos dentro das
organizações; (2) a ideia de evolução permanente, representada pelo símbolo do
infinito a mostrar que a formação de uma pessoa dura a vida toda; (3) os
sistemas circulares nas organizações regenerativas, nas quais o poder é fluído
e a autoridade recai sobre aqueles com a expertise mais adequada à tarefa. O esquema
a seguir procura ilustrar a articulação proposta pelo autor”:
figura
1. estrutura da liderança regenerativa (livre adaptação de Hardman, John. The
Regenerative Leadership Handbook. Kindle Edition, 2012).
Em análise ao esquema acima, resta
induvidosa a valiosa contribuição do Ouvidor no fomento a padrões
colaborativos, intra e intersetoriais no âmbito da Organização a que pertence,
independentemente do segmento que ela integra, bem como o quanto exerce esse
papel de líder regenerativo dentro da estrutura corporativa, ao propiciar espaço
confiável para a desinterdição da fala de diferentes públicos, inclusive o
interno, muitos ordinariamente não ouvidos, fazendo com que tais percepções
sejam tomadas como objeto de consideração e, em seguida, possam ser assimiladas
e legitimadas pelas instâncias decisórias.
Essa abertura constante que a Ouvidoria
propicia e a inserção de diferentes olhares ao agir organizacional,
retroalimenta, legitima e acelera o amadurecimento e o crescimento dos envolvidos
nessa arena comunicacional, os quais se influenciam mutuamente e tomam decisões
coletivas nos mais diferentes níveis, instalando-se uma nova dinâmica de poder,
onde os gestores máximos abandonam sua posição de mero emissores e tornam-se
participantes da comunicação, dialogando e construindo sentido para suas
próprias decisões.
Assim, a figura de um Ouvidor independente e forte,
verdadeiro líder regenerativo reverbera a imagem de sua própria Organização
como ambiente em que a cultura do diálogo é presente e estimulada, locus que
privilegia a interlocução com diferentes públicos, e que tem a Ouvidoria como processo
contínuo de recepção e produção de discursos, haja vista que existe a
compreensão que a ampliação do ouvir, expande também a capacidade de
entendimento sobre a própria essência da Instituição, sua missão, visão e
valores.
Diante de tal quadro, fica evidente o quanto o Ouvidor
e sua equipe contribuem para a humanização e a regeneração das relações
organizacionais, oportunizando através de um movimento dinâmico e ininterrupto
de abertura, acolhimento e escuta, o reforço de vínculos e conexões entre
pessoas e a Organização, a reflexão e a adoção de novos comportamentos, a produção
de conhecimento, o constante aperfeiçoamento e a renovação necessária para manter
viva a Instituição.
[1] The Regenerative Handbook e Leading for Regeneration: going beyond sustainability in
business, community, and education, ambas sem tradução no Brasil.
[2]
Doutor em Saúde Pública pela USP, consultor em avaliação, estratégia e cultura
organizacional e sócio da PACTO – Organizações Regenerativas. Sobre o tema, https://medium.com/pacto-organiza%C3%A7%C3%B5es-regenerativas/o-que-john-hardman-nos-ensina-sobre-a-lideran%C3%A7a-de-organiza%C3%A7%C3%B5es-regenerativas-519a9f1f006a