terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Outras palavras

Os poemas são pássaros que chegam não se sabe de onde e pousam no livro que lês. Quando fechas o livro, eles alçam vôo como de um alçapão. Eles não têm pouso nem porto alimentam-se um instante em cada par de mãos e partem. E olhas, então, essas tuas mãos vazias, no maravilhado espanto de saberes que o alimento deles já estava em ti...
São como um cristal, as palavras. Algumas, um punhal, um incêndio. Outras, orvalho apenas. Secretas vêm, cheias de memória. Inseguras navegam: barcos ou beijos, as águas estremecem. Desamparadas, inocentes, leves. Tecidas são de luz e são a noite. E mesmo pálidas verdes paraísos lembram ainda. Quem as escuta? Quem as recolhe, assim, cruéis, desfeitas, nas suas conchas puras?
"Que fizeste das palavras? Que contas darás tu dessas vogais de um azul tão apaziguado? E das consoantes, que lhes dirás, ardendo entre o fulgor das laranjas e o sol dos cavalos? Que lhes dirás, quando te perguntarem pelas minúsculas sementes que te confiaram?"
 
By Paula Argolio

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Problemas técnicos


 
 
Conhecemos uma pessoa pelos seus atos diários, pelas pequenas
coisas que faz em favor do outro, sem alarde ou propaganda, muito
menos, data certa.
Pequeninos passos, porém continuos, eis o desafio.
Estamos numa época do ano em que muitos procuram "fazer a sua parte" (uma
... forma de dormir com a consciência mais tranquila e resgatar sua paz de espírito por tudo que não fez durante o ano), doando coisas materiais para os mais necessitados.....pura hipocrisia.
Não se reconhece no outro e ainda vangloria-se pelas migalhas dadas.
Os grandes avanços são forjados no trabalho anônimo do dia-a-dia, aquele
labor que não tem publicidade e cujos resultados, embora tímidos, contribuem para a construção de uma realidade mais digna e menos desigual para todos.
Doe-se através do seu trabalho, qualquer que seja ele,
transformando os seus saberes em instrumentos de concretização do
bem estar do teu próximo.
Faça tudo com amor e fique tranquilo, pois com certeza vc terá o "céu" em terra,
todos os dias, sem precisar pagar por isso.

domingo, 27 de novembro de 2011

Uma canção para o dia de hoje....

Canteiros* - Fagner

Quando penso em você, fecho os olhos de saudade
Tenho tido muita coisa, menos a felicidade
Correm os meus dedos longos, em versos tristes que invento
Nem aquilo a que me entrego já me traz contentamento

Pode ser até manhã, cedo claro feito dia
Mas nada do que me dizem me faz sentir alegria
Eu só queria ter no mato um gosto de framboesa
Prá correr entre os canteiros e esconder minha tristeza

Que eu ainda sou bem moço prá tanta tristeza
E deixemos de coisa, cuidemos da vida,
Pois se não chega a morte ou coisa parecida
E nos arrasta moço, sem ter visto a vida.

* Canção inspirada em uma poesia de Cecília Meireles (Marcha) 

domingo, 6 de novembro de 2011

Renascimento...

Eterno renascer....movimentos diários de vida e morte.
Todos os dias, a cada amanhecer, um novo "eu" surge dos
muitos e muitos possíveis seres-em-si.
Ontem, hoje, amanhã....46 ao todo, anos de vida e de
transformação permanente.
Impossível "não-ser".
A essência que se mostra no desnudar das pétalas....
caídas, uma-a-uma, da flor da existência única e, ao mesmo templo, multiplicadora.
A cada aurora, completo mais um aniversário....
Parabéns pra mim, pra ti e pra todos que despertam, a cada dia, com um novo olhar sobre a vida, por mais automático e iigual que pareça ser o ato de levantar-se.....vestir-se.....ir para o trabalho, encontrar as mesmas pessoas.....depois voltar para casa, marido, filhos, amigos.....
É só olhar com atenção....com os olhos do coração, para sentir que nada permanece igual....a energia que envolve os seres está sempre em movimento, como o mundo....

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Palavras, imagens e sons da minha eterna primavera....


Hoje, mais um renascimento.....46 ao todo.
Feliz por estar viva e repleta de vida, de amor e de saúde.
Que seja minha vida um constante aprendizado, uma eterna busca do ser-em-si...da verdadeira essência.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Tributo à Bela

Fernando Pessoa deixa datilografado, sem data, um poema, que fez parte de seu espólio.

À memória de Florbela Espanca

Dorme, dorme, alma sonhadora,
Irmã gêmea da minha!
Tua alma, assim como a minha,
Rasgando as nuvens pairava
Por cima dos outros,
À procura de mundos novos,
Mais belos, mais perfeitos, mais felizes.
Criatura estranha, espírito irrequieto,
Cheio de ansiedade,
Assim como eu criavas mundos novos,
Lindos como os teus sonhos,
E vivias neles, vivias sonhando como eu.
Dorme, dorme, alma sonhadora,
Irmã gêmea da minha!
Já que em vida não tinhas descanso,
Se existe a paz na sepultura:
A paz seja contigo!

À Florbela
(em sua memória)


Sou eu, Florbela! Aquele que buscaste.
Falam de mim Teus versos de Menina.
Tua boca p’ra mim se abriu, divina,
mas foi só o Luar que Tu beijaste.


Hás-de voltar, Florbela!… Em débil haste,
por entre os trigos cresce, purpurina,
a mais fresca papoila da campina
que, só por me veres, não cortaste.


Eu tenho três mil anos: sou Poeta.
Surgi dos lábios secos dum asceta,
de uma oração que Deus deixou de parte.


Redimi tantos corpos, tantas vidas
neles vivi, que sinto já nascidas
asas com que subir para alcançar-Te
(…)

Sebastião da Gama
Arrábida, 6-11-1943

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

E as máscaras continuam caindo......

Lembro bem do trecho da música de Gilberto Gil
que diz: ....Tempo rei, ó tempo rei, ó tempo rei,

ensinai-me ó Pai o que eu ainda não sei.....

O bom da passagem do tempo é que os bons frutos amadurecem e, os maus, apodrecem e caem, sem que seja preciso qualquer esforço para derrubá-los ao solo.

Assim também é a vida.... as máscaras de "bom moço", "intelectual" e "dono da situação" sempre caem. Não há nada que dure para sempre, por pior ou melhor que seja.

Hoje o formigueiro vai dormir de alma lavada e passada e muito bem engomada, diga-se de passagem.

Demorou um pouco, mais a verdadeira face do "Cérbero do Cerrado" acabou aparecendo......essa coisa de estar em vários lugares ao mesmo tempo, impondo sua feroz vontade a tudo e a todos não rendeu os frutos pretendidos. Vigiando e punindo, acabou por perder-se em sua natureza híbrida (metade homem, metade cavalo) e hoje já não é mais nada, nem humano, nem animal. Não lhe socorrem mais as divindades do Olimpo, agora reduzido a verdadeira Babilônia em chamas.

O "dono da verdade" segue então, pobre e de alma desnuda, se é que tinha uma.

A mítica da farsa......o fim do que nunca existiu.



sexta-feira, 9 de setembro de 2011

Pertença

Há um sentimento de pertencimento que envolve os seres, desde os primórdios.

O querer fazer parte de um grupo social, identificando-se com determinados contextos culturais, raciais, religiosos......nada disso é novo, posto que faz parte da essência do homem.

O que há de diferente é a necessidade de alguns indivíduos de pertencerem, a qualquer custo, a certas "castas", das quais se infere o ser não pelo o que ele é, mas sim, pelo que ele aparenta ser, ou pelos atributos exteriores que ele ostenta.

Nestas hordas, todos são iguais, a começar pelas vestimentas que só podem ser de determinadas marcas, os carros, marcas de relógio, destinos turísticos.....tudo muito o mesmo, caso contrário não pode fazer parte do "clube", nem ter acesso ao "Olimpo".

Também as opiniões não diferem.....há uma verdadeira massificação dos "ideais" e das "idéias".

Identidade e pertecimento passam a ser categorias opostas e excludentes uma da outra.

É possível notar um vazio existencial ou, em outras palavras, um vácuo ético que preenche e circunscreve este desenho social. Um enquadramento de seres e de costumes, onde o diferente fica de fora.

Frente a tamanha solidão, sigo em direção oposta à da massa....vou em busca do elo perdido....o reencontro do ser com sua essência, com a natureza.....com o éthos original.

quarta-feira, 7 de setembro de 2011

Pescadora de emoções


Palavras, sons, imagens ......
A intuição que abre as portas da percepção.
Já não sou só eu.....sou muitas, diferentes umas das outras.
Reconheço-me em cada face da minha essência, íntegra, mesmo quando misturada.
Um complexo feixe de luz e sensações que atravessa o universo, no exato instante em que o tempo do eterno recomeça.
Nada é tão sublime quanto o êxtase de encontrar-se aberta para o mundo, sempre disposta a sentir o seu gosto, doce ou amargo.
Não há vida fora das emoções, quaisquer que sejam elas, mesmo que o filtro da razão impeça, momentaneamente, esta compreensão.
Ao final, o sagrado desperta em cada ser a sua imensa capacidade de unir-se com o todo.....a morte* é uma das medidas possíveis deste inevitável encontro.
Incrível que, com o tempo, vamos apurando a sensibilidade, a ponto de vê-la* instalando-se e tomando conta daqueles que amamos..... e nesta hora somos assolados por um sentimento desesperado de vida......uma urgência em viver tudo, amar muito, viajar, realizar sonhos.....
A miserável e rica condição humana transcende o próprio ser e suas inquietações.

sábado, 3 de setembro de 2011

Porque hoje é sabado......




Sábado é dia de descanso....pausa necessária para pousar em outras paragens!!!!
Sábado é dia de música, amor e poesia!!!!

Fernando Pessoa
"Não sei quem sou, que alma tenho. Quando falo com sinceridade não sei com que sinceridade falo. Sou variamente outro do que um eu que não sei se existe (se é esses outros)... Sinto crenças que não tenho. Enlevam-me ânsias que repudio. A minha perpétua atenção sobre mim perpetuamente me ponta traições de alma a um caráter que talvez eu não tenha, nem ela julga que eu tenho. Sinto-me múltiplo. Sou como um quarto com inúmeros espelhos fantásticos que torcem para reflexões falsas uma única anterior realidade que não está em nenhuma e está em todas. Como o panteísta se sente árvore (?) e até a flor, eu sinto-me vários seres. Sinto-me viver vidas alheias, em mim, incompletamente, como se o meu ser participasse de todos os homens, incompletamente de cada (?), por uma suma de não-eus sintetizados num eu postiço."

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Dia de Luz



Dias de sol e muita energia, onde sigo bailando entre as possíveis vidas de mim mesma.


A música que entoa o meu caminhar flui do som do silêncio e da imensidão do mundo.


Não me importa os que outros estão ouvindo, pois a arte da escuta é muito pessoal e depende sobremaneira da sintonia de cada um com o todo.


Não há promessas, nem garantias de riso fácil e leveza nesta performace, antes, um balé solo, no máximo um dueto de você consigo mesmo, por isso que o sucesso depende pouco do espectador e mais do próprio artista.


Sigo neste ritmo envolvente, de abertura e fechamento de ciclos, cada etapa com seu repertório próprio e insubstituível.


A vida segue com as suas variáveis nuances, num banquete de melodias, cores e signos e eu, sempre a deslizar sobre todas as superfícies, aprendiz inquieta e sedenta de movimento.



sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Reciclando as emoções

Energia renovada, retomo a caminhada e vou removendo o "entulho" que foi deixado na tarefa diária de construção e desconstrução do meu eu.

Sigo transformando emoções e experiências em algo útil.....as lições que emergem da dor e da alegria de ser o que sou, argamassa preciosa e insubstituível no edificio da minha existência.

Com matéria-prima farta e mão-de-obra especializada, as escavações seguem a todo vapor. A cada segunda-feira um novo "fóssil" é cuidadosamente removido das profundezas da minha caverna. Esqueleto intacto, passa-se ao estudo de cada uma de suas nuances, um verdadeiro trabalho de arqueologia emocional, com um toque de paleontologia supra-humana.

Nas expedições pelos porões da minha alma sou acompanhada por um experiente guia, necessário ancouradoro que coloca-me a salvo do tormentoso abismo de mim mesma e do mar revolto dos meus pensamentos.

Decifrando o enigma que permeia a minha precária condição humana, inquieta e irresignada.....um mergulho sem volta no sagrado e no sublime movimento da vida.

Fronteiras em expansão, útero em contração, essência e transformação.